Está em andamento a segunda fase da Pesquisa Educação em Territórios de Alta Vulnerabilidade Social. Um dos focos é o acompanhamento de 15 famílias do Jardim Lapenna, em São Miguel Paulista. Trata-se de uma investigação qualitativa, de inspiração etnográfica. "A ideia é participar do cotidiano destas famílias para identificar os investimentos educativos que elas fazem para seus filhos" explica Hamilton Harley, pesquisador.
Hamilton esclarece que a metodologia privilegia a observação em vez das entrevistas, isto quer dizer que ao longo deste período foram observadas sutilezas como se a mãe faz lista de compras, considerada uma atividade de escrita e planejamento, ou se o pai lê a Bíblia, se ela fica aberta, enfim, tudo o que a família faz que tem uma conotação cultural.
Foram cinco meses de acompanhamento e observação e agora a equipe está fazendo a análise do material, inferindo resultados e escrevendo os relatórios. O pesquisador afirma que, ao contrário que muitos pensam, as famílias pobres fazem, de fato, investimentos na escolarização de seus filhos. Entretanto, este investimento não é reconhecido pela escola, porque o corpo escolar está condicionado a um tipo de linguagem, ou seja, tem uma expectiva de comportamento da família que é o acompanhamento sistemático das atividades escolares, que muitas vezes não acontece porque a maioria dos pais não tem familiaridade com os conteúdos.
Como é este investimento das famílias? Segundo Hamilton, este investimento pode ser percebido pelo empenho com o material escolar, por exemplo. Os pais muitas vezes rejeitam o material doado pela prefeitura, considerado de baixa qualidade e investem na aquisiçaõ de caderno de capa dura, por exemplo, assim como quadros negros e giz para as crianças brincarem/praticarem em casa. A organização do tempo também deve ser percebida como um investimento na medida em que as mães estabelecem os horários de ir para escola, de comer, assistir televisão, jogar futebol. E também fazem esforços em ocupar o tempo livro dos filhos matriculando-os no Galpão da Cidadania (mantido pela Fundação Tide Setubal), escola de futebol e atividades culturais da igreja.
Além disso, as famílias reconhecem as melhores escolas e buscam estratégias para matricular seus filhos em escolas de maior prestígio, mobilizando os poucos recursos disponíveis como o capital social. Mesmo com baixa escolaridade, os pais tem elementos para fazer a avaliação das escolas e professores e reclamam das faltas e trocas de professores, falta de conteúdo, inclusive, se indignam quando as crianças chegam em casa reportando comportamento preconceituoso de professores.
Foram cinco meses de acompanhamento e observação e agora a equipe está fazendo a análise do material, inferindo resultados e escrevendo os relatórios, com previsão para a conclusão em dezembro deste ano. Algumas conclusões que já podem ser destacadas são: a escola não conhece o seu público. Por exemplo, os professores pedem para os alunos fazerem pesquisas na Internet, porém muitas crianças vivem em casa com instalação clandestina de luz elétrica. Ou ainda, aos alunos é solicitado fazer lição de casa, mas na casa não tem espaço físico e silêncio para o estudo.
Ainda que vivendo no mesmo território, a amostra de 12 famílias é, em muitos aspectos, heterogênio. Assim, o investimento educativo é orientado por razões diversas, embora, todas estejam imbuídas de uma alta valorização da escola e da educação, são elas: estudar é importante porque traz dignidade e cidadania; a escola é importante porque protege contra a violência e o tráfico, é um lugar seguro; a escolaridade aumenta as chances de se obter um emprego e melhorar de vida.

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